"Amar, em sua essência, é o projeto de se fazer amar."

(Jean-Paul Sartre)



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Amor Bumerangue


Alguns casais parecem que nunca estão felizes juntos e, ainda assim, nunca se separam. 

Geram mal-estar aos que os rodeiam, familiares e amigos sentem-se constrangidos e ainda duvidosos quanto a estabilidade emocional, afetiva, amorosa. Geram mal-estar a si mesmos, constantemente envolvidos em conflitos mútuos, trocas de acusações, ofensas, desgastes. 

Sempre estão "terminando", nunca terminam: nem as questões pendentes, muito menos a tal relação que tanto dasagrada.

Estes parecem viver infelizes. Juntos ou separados, não estão satisfeitos e vivem como se fossem reféns da própria relação. Contudo, basta ver que são eles mesmos que se colocam nesta espinhosa dinâmica de vida a dois. 

Que haja briga nos relacionamentos, pode-se dizer que isto seja até esperado, vide a necessidade de ambos se acertarem e se aceitarem e, para isso, haja negociação! 

Mas a briga não é uma constante num universo amoroso. 

Amor é amor, não é conflito, embora este passeie por alguns momentos (breves!) dentro da relação.


Quando um casal briga frequentemente, pode acontecer de nem perceberem mais o tanto que isto ocorre.

Se acostumam com o mal que se fazem, que co-habita a relação, que lhes tira o sono e a alegria. E estar sempre a ponto de terminar ou sempre terminando e reatando no mesmo dia, no mesmo fim de semana, mesmo evento, já torna-se uma rotina. 


Este jogo de perder e ganhar o outro; de partir e voltar; de estar e não-estar junto, tanto cansa quanto frustra. Então por que não sair simplesmente dessa engrenagem?

Por causa do amor.

Por causa do medo.

E mesmo o amor que une, também sufoca, vigia, incomoda, prende, afasta, repele. 


Isso acontece porque não aceitamos bem o que é amar alguém e por não sabermos lidar com as dificuldades normais do relacionamento, ou com as diferenças (necessárias) do outro, brigar e (ameaçar) terminar nos soa como a saída de emergência providencial para nos tirar dessa enrascada de amar. 

Termino com você já que esta é a porta anti-pânico mais próxima que encontro para abrandar meus medos e inseguranças.

Te ameaço, te culpo, ofendo e digo que vou embora... tudo como um blefe para, na verdade, ouvir que é importante que eu fique, que sou necessário, que não consegue viver sem mim, etc e tais motivos de orgulhos a mais.

Mas...

Assim, me sinto amado, com menos medo de ser traído, abandonado, enganado e então, volto, instantaneamente, para nossa vida juntos.

E indo e vindo, ao longo do tempo, construimos, assim, um modo de amar.

"Terminar", ou mesmo a simples ameaça de que isso será feito, pode ser uma hábil estratégia para fugir dos conflitos, acabar com a briga e encerrar o assunto. Pior ainda, ao fazer isto tenho ares de vencedor, pois foi eu quem deu fim a isso tudo, eu fui o ofendido, sou a vítima e é você quem deve me pedir perdão. 

O que há de errado nisso? Tudo!

Qualquer sorte de estratégias, jogos, artimanhas, quando habitam os bastidores do amor de um casal, são o que há de mais nocivo para os dois, pois há estabelecida uma competição e não uma relação.

Há uma busca por quem é mais forte, mais poderoso, mais mais mais... e isso é coisa muito equivocada quando o que é importante acontecer em um relacionamento a dois é equivalência, ajuda mútua, companherismo, união.

Também esta "estratégia de terminar" a cada desentendimento mais grave, simplesmente não resolve a questão, só a corta bruscamente e as diferenças, os conflitos, problemas, detalhes, não estão resolvidos, estão apenas abandonados.

O que lhes falta para olhar firmemente seus defeitos e resolverem? Juntos ou individualmente, esmiuçar a questão que os tira a paz pode não ser o mais fácil, mas certamente é o melhor para o casal. 

Ficarem se ameaçando de abandonos frequentes ao contrário de construir a relação de união e confiança, só deteriora. 

A cada "término" ou a cada ameaça disto, os dois se sentem abandonados.

Os dois desacreditam, gradativamente, no amor que havia e o que os une não é mais ele, mas o medo de perder o amor.

Tentem não usar a saída mais fácil e bater a porta na cara do que estava precisando ser resolvido junto com o outro.


Batam, sim, a porta, e se tranquem do lado de dentro para voltar a confiar e aprenderem juntos como continuar. 
         
   
   

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